CAFÉ - AS RECEITAS

Café - As receitas do Mané
Os franceses, já há muito, conhecedores da lenda árabe que falava de um fruto que as cabras comiam e não dormiam e do valor comercial que tais frutos poderiam ter, mantinham como segredo de estado vasta plantação do café em sua colónia americana, a Guiana.
Em 1727, o governador do Maranhão e Grão Pará, no Brasil, João Maia da Gama, tendo sque enviar à Guiana Francesa uma expedição para resolver uma questão de delimitação de fronteiras, aproveitou o ensejo para pedir ao sargento-mor Francisco de Melo Palheta, comandante da expedição, para que desse um jeitinho de trazer algumas sementes de café.
A missão oficial foi discutida com o governador da Guiana, Claude d’Orvilliers, a missão sigilosa resolveu-se com madame d’Orvilliers, esposa do governador que, ao apaixonar-se por Palheta, ofereceu-lhe algumas sementes e cinco mudas de café. Foi o que bastou para que o Brasil viesse a ser o maior produtor mundial de café e descobrisse a táctica de atear-fogo-a-tudo para controlar o preço no mercado.
Apesar da língua galaico-portuguesa estar intimamente ligada ao café, se você quiser conhecer melhor esta planta, terá mesmo que gastar o latim, pois o cafeeiro pertence ao grupo das Fanerógamas, classe Angiosperma, subclasse Dicotiledônea, ordem Rubiales, família das Rubiaceas, tribo Coffeae, subtribo Coffeinae e género Coffea, do qual as espécies são agrupadas em quatro secções: Eucocoffea, Mascarocoffea, Argocoffea (oriundas da África) e Paracoffea (oriunda da Índia, Indochina, do Sri Lanka e da Malásia).
A secção Eucoffea (de maior importância económica, pois abrange as espécies mais cultivadas para consumo do café) divide-se nas subsecções: Erytrocoffea, Pachycoffea etcoeteracoffea. E como são tantas, fiquemos pela Erytrocoffea, que é a que compreende, entre tantas espécies, as Coffea arabica (café arábica) e Coffea canephora (café robusta) que são as únicas cultivadas em larga escala, contando com inúmeras variedades e as que melhor se prestam para afinar uma conversa, fazer amigos, realizar negócios, começar um namoro, receber uma visita, motivar uma pausa, terminar uma refeição, iniciar um novo dia… ou simplesmente, fazer-nos estalar a língua e exclamar:
“Eta cafezinho bão!” (expressão galaico-portuguesa falada no Brasil).
Bem, as caras pessoas leitoras hão de convir que, se na sociedade em que vivemos, sendo o café, para muitos, um santo remédio, há que se ter a bula.
Portanto, aqui vai a composição química do café.
________________Teor (% da matéria seca)
Componentes _____________________
______________________Arábica___Robusta
Cafeína .............................0,6 –1,5 ......1,6 – 2,7
Trigonelina .............................1 ..................1
Cafeol ................................0,7 – 1,1.............-
Ac. Clorogénicos............... 6,2 – 7,9...... 7,4 – 11,2
Sacarose e açúcares
Sacarose e açúcares
redutores........................... 5,3 – 9,3...... 3,7 – 7,1
Aminoácidos livres............ 0,4 – 2,4...... 0,8 – 0,9
Polissacáridos..................... 46 – 59......... 43 – 54
Proteínas..................................12..................12
Lipídeos
Aminoácidos livres............ 0,4 – 2,4...... 0,8 – 0,9
Polissacáridos..................... 46 – 59......... 43 – 54
Proteínas..................................12..................12
Lipídeos
(triglicerídeos e outros)....... 12 – 16.......... 10 – 12
Outros ácidos........................... 2................... 2
Minerais (cinzas).......................4................... 4
Total.....................................90 – 114........ 86 – 107
Além da água, que é quase toda eliminada pela torrefacção, o café tem mais de setecentas substâncias voláteis que compoem o seu aroma.
Outros ácidos........................... 2................... 2
Minerais (cinzas).......................4................... 4
Total.....................................90 – 114........ 86 – 107
Além da água, que é quase toda eliminada pela torrefacção, o café tem mais de setecentas substâncias voláteis que compoem o seu aroma.
HUUMMMMM!!!!!
Mas, antes das receitas, vamos saber dos efeitos do café no organismo pois, como todo hábito social, tem os defensores e os detractores, os que se sentem bem, os que se sentem mal e os indiferentes.
Genericamente falando é assim:“O café exerce influência principalmente sobre o sistema nervoso e circulatório do organismo, provoca a activação da função cerebral (efeito intellectual) e constitui também, um tónico cardíaco e um diurético, além de ser vasodilatador (actuando nos brónquios) e podendo atenuar os danos provocados pelo fumo.
Estudos realizados quanto aos efeitos carcinogénos, teratogénicos ou mutagénicos da cafeína resultaram negativos. Resultados semelhantes foram obtidos com a administração do café a um grupo de idosos hipertensos nos E. U. A. sendo comprovado a ausência de relação entre o uso do café e a mortalidade. Pode-se concluir portanto, por esses e por um grande número de trabalhos científicos que alicerçam os conhecimentos actuais, que o consumo normal de café (4 a 5 chávenas/dia), não representa qualquer dano à saúde humana.”
AS RECEITAS
Cafezinho à brasileira (de saco): Com a água em início de fervura, deitar 5 colheres de sopa bem cheias de pó de café para cada litro d’água. Misturar com uma colher de pau e despejar num coador de flanela. Servir em seguida com ou sem açúcar. Variação: despejar a água quente sobre o pó no coador.
Expresso: Faz-se com a passagem da água quente pelo pó, sob pressão. Consegue-se com uma cafeteria de pressão ou indo-se a uma cafetaria e pedindo uma bica, se estiver em Lisboa ou um cimbalino se estiver no Porto.
Variações:
Carioca – a bica com uma pinga d’água
Garoto – a bica com uma pinga de leite.
Italiana – bica curta, bem concentrada
Com cheirinho – a bica com uma pinga de bagaço
Capuccino: Café, leite e crème acrescido de técnica e arte individuais.
Cocktail: Uma dose de aguardente, uma colher de chá de açúcar e meia chávena de café forte. Bater numa coqueteleira com cubos de gelo. Servir em seguida.
Refresco: Duas colheres de sopa de café forte para cada copo com água fresca ou com gelo. Açúcar a gusto. Variação: em vez de água, misturar um gelado de crème.
Frapê de café: Congelar café bem forte. Juntar dois cubos de café para cada copo de leite. Açúcar a gusto. Bater em liquidificador até formar uma mistura cremosa. Servir em taça alta com ou sem crème de chantlly.
Café vienense: Bater meia chávena de crème de leite. Juntar uma colher de sopa de açúcar. Deixar no frigorífico até estar bem fresca. Acrescentar 4 colheres de chá de chocolate em pó, 8 colheres de chá de açúcar e 4 colheres de sobremesa de crème de leite adicional. Misturar até obter uma pasta. Acrescentar o café (meio litro para cada porção), lentamente. Servir enfeitado com crème de chantilly e umas pitadas de canela em pó.
Café turco ou café grego (na grécia): Ferver água com açúcar a gusto. Acrescentar café moído bem fino. Ferver a infusão por três vezes. Retirar do fogo e juntar algumas goats de água fria. Servir lentamente.
Bolo de café: Ingrediente: 4 ovos – I pitada de sal – 3/4 de chávena de açúcar – 1 1/2 chávena de farinha de trigo – 1 colher de chá de fermento – 3 colheres de sopa de café forte – 1/2 colher de chá de canela – 1 pitada de cravo moído.
Bater as claraas em neve com sal. Adicionar o açúcar, lentamente, batendo sem parar. Juntar as gemas e bater até que a mistura engrosse e fique bem cremosa. Juntar a farinha de trigo, o fermento, a canela, o cravo e o café fervente. Despejar a mistura em duas formas de 20 cm. de diâmetro, bem untadas. Assar em forno moderado durante 20 min. Retirar das formas e deixar arrefecer. Unir os dois bolos com crème de chantilly e despejar, por cima, o chocolate derretido com café.
Pudim de café: Ingredientes: 2 latas de leite condensado – 1 chávena de café bem forte – 1 chávena de leite – 5 ovos – 1 colher de sopa de conhaque – glucose de milho ou mel.
Bater os ovos e misturar com o leite condensado, o café e o leite. Passar duas vezes por peneira fina. Forrar uma forma com glucose de milho ou melo. Colocar a mistura de leite e café na forma e assar em banho-maria, em forno quente.
Brigadeiros com café: Ingredientes: 1 lata de leite condensado – 1 colher de sopa de chocolate em pó – 1/3 de chávena de café bem forte – 1colher de sopa de manteiga – coco ralado.
Misturar todos os ingredients em uma panela.Mexer sobre lume brando até ao ponto em que der para ver o fundo da panela e a mistura se desprender dos lados. Colocar num prato untado. Deixar arrefecer. Formar bolinhas com as mãos umedecidas com água, passando-as em coco ralado.
Gelado de café: 1ª tigela: 6 gemas - 1 colher de sopa de açúcar – 3 colheres de sopa de café solúvel dissolvidas em uma colher de chá de água.
2ª tigela: bater 2 pacotes de natas com uma colher de sopa de açúcar.
3ª tigela: 6 claras em castelo mais uma colher de sopa de açúcar.
Envolver, por ordem, as três tigelas. Gelar em forma de bolo. Desenforma-se com fogo no rabo (da panela) e cobre-se com chocolate derretido.
Rebuçados: São uma delícia mas, infelizmente, não os sei fazer. Se você tem a receita, por favor envia-ma.
Desenhos com café: Utilizar as mesmas técnicas da aguarela, aguada etc. dependendo do gosto de cada pessoa.
A partir da adivinha popular:
“O que é, o que é…
Preto como o carvão
Forte como o Diabo
Quente como o Inferno
Doce como o amor?”
O barão Homem de Mello glosou as seguintes quadras:
Das cavernas tenebrosas
Do temível dues Plutão
Vem jorrando este café
Preto como carvão
Reclinado em seu coxim
Diz o opulento nababo
“Como sabe este café
Forte como o Diabo”
Neste Rio de Janeiro
Em dias frios de Inverno
Como sabe este café
Quente como o Inferno
Mas, ah, que Linda menina
Formoso botão em flor
Vem trazer-nos o café
Doce como o amor.
O famoso caricaturista português, Stuart Carvalhaes, com poucos recursos monetários, comprava uma cartolina lisa, lixava-a para obter a devida porosidade, mascava a ponta de um palito de fósforo – o pincel. A tinta – o vinho derramado sobre o balcão do bar ou o resto de café no fundo de uma chávena. Tudo o mais era arte.
Van gogh costumava fazer os seus esboços com café, mas a sua bebida preferida era outra.
Johann Sebastian Bach era um cafeinómano. Dito assim a oração fica impregnada de preconceito. Mas era mesmo preconceito o que sofria Bach e todos aqueles que tinham o hábito do cafezinho. Pois o café, assim como o tabaco e o álcool, também tem a sua época, local e situação histórica de marginalidade. Porém, Bach vingou-se e, como Baco fez odes ao vinho, Bach exaltou ao máximo o café. Afinal, o café não era apenas um vício, era o próprio arrimo para suportar as poucas horas de sossego e compor. Eram vinte filhos dentro de casa, o que fica até difícil de acreditar que ele pudesse deixar tanta obra escrita. Além da Cantata do Café, ele compos um verdadeiro hino à bebida preferida que tornou-se uma das músicas mais conhecidas no mundo e chamou-lhe “Café, a alegria dos homens”. A igreja alterou-lhe o título, mas o café continua a fazer por merecer a intenção original.
Fonte:
· O café – do cultivo ao consumo – Matiello, J. B.; ed. Globo – São Paulo, 1991. 320 p. e ilustrações
· Caféiers et café – Coste, R. ; ed Maisonneuve e Larose – Paris, 1989. 373 p. e ilustrações
· A gaveta da vovó
· De ouvir dizer
Este opúsculo é dedicado ao pintor e amigo Zé Cordeiro, que “inventou” o Mané do Café e (em memória) a Manezinho Rodrigues, meu avô, que plantou os primeiros pés-de-café que vi na vida, embaixo dos quais brinquei a minha infância.
Com muito amor e humor.
Aos manos Felipe, Paulo Roberto e Carlos Cezar que, mesmo de longe, dão tanta força e bem mereciam mais que um “opúsculo”.
Agradecimentos ao casal Sara e Eumari pela grande ajuda na recolha de material e à professora Celeste Pena que, ao ler um exemplar da primeira tiragem, providenciou com muito carinho a receita do Gelado.
Lisboa – 1996
Jorge Carlos Amaral de Oliveira.
Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, a 23 de Julho de 1952. Despertou para as artes no Estado do Acre, na Amazónia brasileira, o que o levou a abandonar o curso superior de Geografia para, a tempo integral, lançar mão às mais variadas formas de expressão artísticas e, através delas, gritar a sua indignação contra as injustices para com as gentes e as matas do Acre. Com o fim da ditadura military no Brasil, sossegou um pouco e passou a dedicar-se mais ao teatro (no qual se profissionalizou) e às artes-plásticas. Adoptou o pseudonimo de João Maiara e, a partir de 1995, seguindo uma sugestão do pintor Zé Cordeiro, passou a assinar Mané do Café. Reside em Portugal desde 1990.
Está representado no Museu Estadual do Acre; Museu Municipal de Alcochete, Portugal; Museu do Café, de Campo Maior; Secretaria de Indústria e Comércio do Acre; Serviço Social do Comércio do Acre; Tropicalp (Associação Suíça-Brasil), Lausanne, Suíça e sede da ABIC (Associação Brasileira de Indústria do Café), Rio de Janeiro.
Das muitas exposições colectivas e individuais que tem realizado desde 1981, destacam-swe: VIVA CAFÉ, CAFÉ PARA OS AMIGOS, CAFÉ EM CAFÉ e CAFÉ ERÓTICO, Rio Branco; 7º SALÃO DE ARTES (Fundação Rômulo Maiorana) Belém; inauguração do PARQUE CHICO MENDES, São Paulo; atracção do “stand” do CAFÉ PALHETA (Feira da ABRAS) e VAMOS VER UM CAFÉ? (Centro de Artes Calouste Gulbenkian e condomínio Novo Leblon), Rio de Janeiro e DESENHOS FEITOS COM CAFÉ, Brasília (BRASIL) – COLLEUR CAFÉ e CAFÉ FRATÉ, Lausanne (SUÍÇA) – OS TONS DO CAFÉ, CAFÉ MALUCO, CAFÉ DE IMPROVISO, Lisboa; ESCULTURAS EM CEDRO, São Pedro de Moel; PINTURA COM CAFÉ, Caminha; ARTE A CAFÉ, Alcochete; ARTES-PLÁSTICAS NA LUSOFONIA, Évora; INVERNO CULTURAL, Cascais e INVERNO ARTE, Nisa (PORTUGAL) – LE RÊVE ET L’EXOTISME, Morrièresles Avignon (FRANÇA) e CAFÉ CRIANÇA (itinerante).
LIVROS:
Was Bach Brazilian? – Teorema - Lisboa, 2004
O Português ou Escravos da Esperança – Campos das Letras – Porto, 2003
Punk rock & Cia. ou O Grande Gastão – um romance pimba por Esteves Oliveira – edição de personagens sob a chancela Pangeia - Lisboa, 2005
Ladrão de Sonhos – Academia da Edição – Lisboa, 2001
Dona Peta – conto minha vida – Lisboa, 1999
Um poema e outras brincadeiras - Lisboa e Rio Branco, 1993
Qomunicassão I espressão – um artigu com muinto umor – Fundação Cultural do Acre – Rio Branco, 1989
Colectânea de Poesia Acreana – Casa do Poeta do Acre – Rio Branco, 1987
Literatura de cordel – vários livretos de produção caseira e de venda e divulgação clandestinas – 1978-1988.
Was Bach Brazilian? (en castelhano) – (traducção: Ana Marquez) – Mimeógrafo – Lisboa, 2005




